OPINIÃO: Patriotismo não vem do futebol, e sim das urnas
Pessoal do LSH, se prepare que agora vem textão: No verão de 2026, o mundo do futebol parou mais uma vez para aplaudir a Espanha. La Roja conquistou o bicampeonato mundial, erguendo a taça pela segunda vez consecutiva e consolidando-se como a grande potência da bola no século XXI.
Enquanto isso, no Brasil, o hexa segue sendo um sonho adiado, quase uma maldição que se arrasta desde 2002. A seleção canarinho voltou para casa mais uma vez sem o título que tanto promete e que o torcedor tanto cobra. Mas, para além das quatro linhas, essa diferença entre o sucesso espanhol e a frustração brasileira revela algo mais profundo sobre nações, identidades e o verdadeiro significado do patriotismo no mundo contemporâneo.
A vitória espanhola não foi fruto do acaso. Foi o resultado de décadas de planejamento, investimento em base, valorização de técnicos inteligentes, criação de uma liga forte (La Liga) que exporta talento mas mantém qualidade interna, e, principalmente, de um senso coletivo de projeto nacional.
Os espanhóis aprenderam com as lições do passado. Depois de anos de underachievement apesar de talento individual, entenderam que o futebol é um esporte de ideias, de sistema, de cultura tática. Jogadores como Pedri, Yamal, Nico Williams e uma geração dourada foram lapidados com paciência.
A federação espanhola, os clubes e o Estado (de forma indireta, através de políticas esportivas) trabalharam em sintonia. O resultado? Uma seleção que joga com identidade clara, posse de bola inteligente, pressão alta coordenada e, acima de tudo, humildade para evoluir.
No Brasil, o cenário é dolorosamente familiar. Talentos individuais seguem surgindo — porque o brasileiro nasce com a bola no pé —, mas o sistema não os potencializa. Clubes endividados, federação criticada, calendário exaustivo, falta de investimento em infraestrutura de base de qualidade em escala nacional, e uma cultura que ainda superdimensiona o “jogo bonito” em detrimento de organização tática e mentalidade vencedora.
O hexa virou uma obsessão quase religiosa. Cada Copa é vendida como “a nossa vez”, com promessas de renovação que raramente se cumprem. Enquanto isso, o torcedor brasileiro, apaixonado como poucos no mundo, vive ciclos de euforia e depressão coletiva. O país que inventou o futebol-arte parece preso no tempo, cobrando heróis individuais enquanto falha coletivamente na construção de um projeto duradouro.
Essa disparidade esportiva serve como poderosa metáfora para realidades maiores. A Espanha, mesmo com seus problemas internos — desemprego juvenil, questões catalãs, instabilidade política ocasional —, demonstra capacidade de executar planos de longo prazo em várias áreas. O Brasil, rico em recursos naturais, com uma população jovem e criativa, segue tropeçando em sua própria desorganização crônica.
E aqui entra o cerne do tema: talvez o patriotismo verdadeiro, no século XXI, não se resuma mais a pintar o rosto de verde-amarelo, a cantar o hino nos estádios ou a ostentar bandeiras em janelas de carros. O patriotismo maduro, o que realmente transforma nações, é levar as eleições a sério.
Pensemos nisso com frieza. Uma nação não se constrói apenas com gols de Neymar, Mbappé ou Yamal. Constrói-se com políticas públicas consistentes, educação de qualidade, combate à corrupção, atração de investimentos, meritocracia aliada à inclusão real, e, fundamentalmente, com escolhas coletivas responsáveis nas urnas.
O brasileiro é campeão mundial em demonstrar amor pelo país nos momentos emocionais — Copa do Mundo, Olimpíadas, tragédias naturais que unem o povo. Mas, quando chega o momento decisivo das eleições, esse patriotismo muitas vezes se dissolve em emoções, memes, fake news, populismo de direita ou esquerda, e escolha baseada em carisma ou promessas irreais.
Levar as eleições a sério significa estudar os candidatos, cobrar planos viáveis, exigir transparência nos gastos públicos, rejeitar o “rouba mas faz”, valorizar competência técnica em vez de discurso inflamado, e entender que o voto não é torcida de futebol. Não se trata de ser “isentão” ou apolítico. Trata-se de ser exigente. A Espanha não ganhou duas Copas do Mundo porque seus políticos são perfeitos. Ganhou porque construiu instituições e uma cultura que, apesar das falhas, permitem continuidade em projetos importantes. O Brasil precisa urgentemente desenvolver essa maturidade cívica.
Imagine se o mesmo empenho emocional que colocamos na Seleção fosse direcionado à cobrança de resultados concretos nas áreas que realmente importam: melhoria da educação básica (onde estamos vergonhosamente atrás de muitos países emergentes), redução da violência, desburocratização da economia, investimento em ciência e tecnologia, e reforma política que acabe com o fisiologismo.
O hexa viria mais cedo se tivéssemos dirigentes competentes no futebol, mas dirigentes competentes só surgem em um país que valoriza competência também na política.
O patriotismo emocional é fácil. Ele nos faz chorar com o hino, vibrar com um gol de falta, sofrer com uma eliminação nos pênaltis. O patriotismo racional é difícil.
Exige ler propostas, comparar números, aceitar que não existem salvadores da pátria, e entender que o desenvolvimento é lento, gradual e depende de escolhas repetidas ao longo de décadas. Países que progrediram — Coreia do Sul, Singapura, Estônia, até mesmo a própria Espanha pós-Franco — fizeram isso com continuidade de políticas sensatas, mesmo com alternância de poder.
O Brasil, ao contrário, costuma zerar o odômetro a cada mudança de governo, destruindo o que estava sendo construído.
Enquanto a Espanha celebra nas ruas de Madri, Barcelona, Sevilha e Bilbao, unida em torno da conquista, o Brasil volta a se dividir em narrativas. Uns culpam o técnico, outros a CBF, outros a “falta de garra”, outros ainda teorias conspiratórias.
Raramente nos perguntamos: o que nós, como sociedade, estamos fazendo de errado há tanto tempo? Por que o talento individual não se converte em sucesso coletivo? Por que repetimos os mesmos erros?
O novo patriotismo brasileiro deveria ser este: transformar o orgulho nacional em exigência cívica permanente. Em vez de gritar “Brasil!” apenas quando a bola rola, gritar por accountability quando o dinheiro público é mal gasto.
Em vez de discutir apenas escalação, discutir projetos de lei e orçamentos. Em vez de esperar o próximo Messi de Guarulhos, construir um ambiente onde talentos possam florescer em todas as áreas — do futebol à engenharia, da medicina à empreendedorismo.
A Copa do Mundo é importante. Ela alegra, une, gera memória afetiva. Mas o destino de uma nação de 200 milhões de habitantes não pode depender de onze jogadores em campo a cada quatro anos.
O verdadeiro jogo que decide o futuro acontece nas eleições municipais, estaduais e federais. Nele, o “técnico” é o eleitor. A “torcida” é a sociedade civil. E o “troféu” é um país mais educado, próspero, justo e organizado.
Espanha bicampeã mundial.
Parabéns a eles. Que sirva de lição e inspiração. O Brasil tem tudo para ser uma potência — recursos, gente, criatividade, dimensão continental. Falta-nos apenas amadurecer enquanto povo.
O hexa pode esperar mais um ciclo. O desenvolvimento do país, não.
O verdadeiro grito de guerra patriótico, hoje, não é só “rumo ao hexa!”. É “votar com responsabilidade, cobrar com seriedade e construir com paciência”, porque, no final das contas, a maior taça que o Brasil pode levantar não é de futebol. É a de uma nação que finalmente decidiu levar seu próprio futuro a sério.
E isso começa nas urnas, nas escolas, nas empresas, nas ruas e no dia a dia de cada cidadão. O resto — incluindo o hexa — virá como consequência natural de um povo que aprendeu a vencer fora das quatro linhas.



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